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21.01 | Barbie é legal, mas só como brinquedo

Entrei em choque quando li, com alguns meses de
atraso, que a Heidi Montag, da série americana
“The Hills”, se submeteu a dez procedimentos de
cirurgia plástica em um dia. O argumento dela é
de que tinha e tem o desejo de ser tão bonita
quanto pode ser, tanto interna como
externamente. Gente, tudo tem limite. Quem
conhece o programa sabe que a Heidi era linda e
que não precisava de plástica nem aqui nem na
China.

O nariz foi, em suas palavras, “melhorado”; o seio
foi aumentado, as orelhas foram “ajeitadas”, o
queixo foi lixado; o bumbum, aumentado...e a
lista continua. Eu não sou contra a cirurgia
plástica, nem nunca fui. Eu sou contra o exagero.
Eu sou contra a ideologia de que toda mulher tem
a obrigação de ser perfeita (porque isso a gente já
quer, não precisa colocar mais pressão, entende?).
Não há absolutamente nada de errado em investir
horas preciosas do mês em massagens de
drenagem linfática, cabelereiro, manicure e
academia (mesmo porque exercício físico tem
mais a ver com saúde, e o corpo bonito é uma
consequência disso). A gente tem que se dar o
direito de fazer essas coisas porque elas
realmente fazem com que a gente se sinta mais
bonita, mais auto-confiante. O problema é quando
esses rituais de beleza viram um dever. A partir do
momento em que as Heidis da vida estabelecem
um padrão impossível de se alcançar sem 10
procedimentos cirúrgicos, temos um problema, e
um problema sério.

Eu sinceramente olho para as fotos de “antes” e
“depois” da Heidi com uma profunda tristeza. Fico
triste por ela, sim, mas fico especialmente triste
com a mensagem que ela transmite: a de que
temos, como mulheres, a obrigação de atingir a
perfeição. A mensagem dela é de que é isso que
importa nesse mundo de aparências.

Se não conseguirmos nos olhar no espelho e
desejar uma plástica sabendo que, na verdade,
não é bem isso que importa, que o que importa é
quem somos, estamos perdidos. A plástica é uma
aliada pra construção da auto-estima, e não uma
arma a ser usada para matar, de vez, a baixa auto-
estima. Feita da forma errada, ela só alimenta
aquele mito horroroso de que valemos de acordo
com as medidas da beleza externa, e isso é uma
violência para com todas as mulheres deste
mundo. A mulher tem que conquistar o direito de
ser normal: nem Barbie, nem mocreia; nem obesa,
nem esquelética. É simples: normal. Pode ou é
pedir muito?



Melina Savi é a mulher das crises de identidade. Desde pequena sabia que queria “se comunicar”, e sempre buscava uma forma de fazer isso, fosse por meio do cinema, das letras ou da fotografia. É formada em letras – inglês, fez parte da graduação em New York, onde estudou cinema, é especializada em tradução e está concluindo sua dissertação de mestrado em (pasmem!) identidade.
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